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DEPARTAMENTO DE MEDICINA SOCIAL FACULDADE DE MEDICINA DE RIBEIRÃO PRETO - USP

A Criação do Departamento de Higiene e Medicina Preventiva

A criação do DHMP na FMRP recebeu grande influência da pessoa do seu fundador, José Lima Pedreira de Freitas, das suas idéias e da sua experiência profissional. Era ele um eminente professor de parasitologia da FMUSP, que a partir de 1944 dedicou-se a estudar a Moléstia da Chagas, sobre a qual fez importantes descobertas e estudos, que associam com justiça, seu nome aos grandes cientistas que lutaram contra a mesma. Aperfeiçoou os métodos para seu diagnóstico juntamente com José de Oliveira Almeida, ao desenvolver a técnica quantitativa da fixação do complemento para o diagnóstico de Chagas e que viria a tornar-se padrão internacional; mostrou a importância epidemiológica da doença, em São Paulo, no Brasil e na América Latina, a qual era muito subestimada naquele tempo; com seus assistentes estudou a transmissão congênita da Moléstia; estudou a transmissão por transfusão sanguínea, propondo a esterilização «in vitro» do sangue com o uso de violeta de genciana como medida profilática; efetuou ainda vários trabalhos sobre a biologia dos triatomíneos, vetores naturais da doença; estudou as formas nervosas da Moléstia de Chagas. Além disto, criou laboratórios para o diagnóstico sorológico, que foram utilizados não somente para a comprovação da etiologia chagásica como para a realização de inquéritos epidemiológicos, que tornaram possíveis numerosas publicações que demonstravam a importância da Moléstia de Chagas como causa de morbimortalidade. Em 1947, instalou no município de Cássia dos Coqueiros, um Posto de Estudos da Moléstia de Chagas que lhe permitiu realizar estudos clínicos, epidemiológicos e de profilaxia, usando a aplicação do Rhodiatox e Gamexane contra triatomíneos, além de exames de xenodiagnóstico em animais domésticos e silvestres. Tornou-se perito consultor da OMS/OPAS nesta matéria.

Em 1952 foi à Universidade de John Hopkins para fazer curso de Saúde Pública e visitar laboratórios sobre sorologia de moléstias parasitárias nos EUA, obtendo o grau de Master in Public Health. Em setembro de 1953, foi contratado como Professor Adjunto Interino, junto ao Departamento de Parasitologia da FMRP e participou na instalação da seção de sorologia para moléstias parasitárias, com interesse especial na moléstia de Chagas. Contratado como Catedrático de Higiene em 18 de agosto de 1954, denominou o Departamento de Higiene e Medicina Preventiva (DHMP), convencido da necessidade de que os aspectos preventivos e sociais da medicina, deveriam ser apresentados aos futuros médicos não como uma especialidade, mas como um ponto de vista constituindo parte integrante de sua formação. «Decorriam daí algumas conseqüências:

  •   A necessidade de ensinar Higiene não como uma disciplina isolada mas como um ponto de vista que deveria permear a formação do futuro médico…tornava absolutamente necessário fazer o ensino da cadeira…junto ao setor clínico e em estreita colaboração com outras cadeiras;
  • Constituindo a epidemiologia o principal elemento para conhecimento da história natural das doenças para fornecer as bases para sua prevenção, reconheceu o autor a importância de contar no DHMP com um estatístico.»

Suas idéias sobre como focalizar o ensino da higiene e medicina preventiva seriam fortalecidas em duas oportunidades: o «travel grant» obtido da Fundação Rockefeller para visitas a Porto Rico e EUA, e o Iº Seminário sobre o Ensino da Medicina Preventiva, Viña del Mar, Chile, outubro de 1955, patrocinado pela OMS/ OPAS. No seu Memorial de Concurso de Cátedra refere também a influência que recebeu na sua formação durante seus 10 anos de convívio com Samuel B. Pessôa. Definiu então as diretrizes do DHMP: “Deveria funcionar junto aos serviços hospitalares; não instalar laboratórios próprios, mas promover o trabalho conjunto…; estimular a integração docentes-funcionários e a cooperação com outros departamentos e/ou instituições de saúde pública, propiciando a diversificação de atividades e tendências dos elementos do corpo docente; garantir o caráter efetivo e duradouro organizando serviços de ensino, assistências ou de investigação…”

Em 1955 tiveram início as atividades didáticas do DHMP: Curso de Epidemiologia e Bioestatística no 4º. ano. Curso sobre Epidemiologia e Profilaxia das Doenças Transmissíveis em estreita articulação com o curso de Clínica de Doenças Infecciosas e Parasitárias. Curso de Estatística com algumas noções sobre estatísticas vitais. Em 1956, desenvolveu a Epidemiologia das doenças crônicas transmissíveis e não transmissíveis, no segundo semestre do 5º. ano; Introdução ao estudo dos métodos estatísticos aplicados à medicina (2º. ano). Iniciou o Serviço de Assistência Médica Preventiva e Social a Famílias, com participação de Nagib Haddad e de uma enfermeira de saúde pública. Colaborou com o curso de enfermagem ministrando cursos de Saneamento, Estatística, Epidemiologia e Administração Sanitária. Em 1957, o Curso de Estatística passa a ser ministrado no 1º. ano, como permanece até hoje; inicia-se a colaboração com o Departamento de Pediatria, ambos participando do planejamento e execução do Programa de Visitas Domiciliárias. Com a instalação das cadeiras clínicas da FMRP no prédio da Maternidade Sinhá Junqueira (atual Unidade de Emergência), o DHMP se instala em 1958, conjuntamente com o Serviço de Enfermagem e Saúde Pública, numa casa vizinha, alugada. Começa a colaborar com o Ambulatório de Puericultura, assume o Serviço de Imunizações do HC e amplia o programa de Visitas Domiciliárias à Crianças.

Em 1959, em estágio alternado com a Clínica Médica, inaugurou-se o estágio de Medicina Preventiva a grupos de 10 alunos no IV ano. O ensino teórico passou a ser dado no Curso Conjunto Bienal das Cadeiras Clínicas para alunos do 4º. e 5º. ano. Essas atividades representaram elementos decisivos para o DHMP no sentido de integração do ensino desse departamento. Em, 1961 com a ampliação do Hospital das Clínicas, o DHMP transferiu-se para o quinto andar e o curso de Estatística passou a ser ministrado no HC, em sala adaptada especialmente para essa finalidade.

A Lei 1467 de criação da FMRP, cuidou especificamente da criação de um Centro de Saúde anexo a essa Faculdade e orientado por um Conselho, do qual faria parte o Professor de Higiene que afirmava: “Apesar de ardente defensor da importância do trabalho na comunidade para a formação do futuro médico, o autor não está convencido da necessidade de a Faculdade de Medicina contar para isso com uma área especial de treinamento, como seria um Centro de Saúde sob seu controle direto. É mesmo de opinião que visando a formação do futuro médico que, particularmente no Brasil, terá que lidar com indivíduos vivendo em comunidades onde com freqüência são muito deficientes os serviços de saúde, será preferível que o estudante tome contato com pacientes em ambiente que não difira daquele que usualmente irá encontrar…

O trabalho na comunidade visa… dar ao aluno a oportunidade de tomar contato com pacientes no ambiente familiar de maneira a poder investigar os fatores físicos, sociais ou mentais que possam por um lado ter contribuído ou estar contribuindo para a doença em causa, por outro lado analisar de que forma essa doença está se refletindo no ambiente social ou familiar… Usará também essa oportunidade para…tomar contato com as instituições médico-assistenciais da comunidade, em particular com os Serviços Oficiais de Saúde, particularmente ao nível local”.

O Programa de Assistência Médica Preventiva e Social à Famílias no ensino de graduação, visava a integração com outros departamentos da FMRP e com a Secretaria de Saúde Pública e Assistência Social, em particular o Dispensário de Lepra e de Tuberculose, Delegacia de Saúde e o Centro de Saúde de Ribeirão Preto (posto de vacinação e notificação de doenças). Em 1963 e 1964 o DHMP, em colaboração com o Departamento Regional de Saúde coordenou a vacinação antivariólica no município de Ribeirão Preto, com ampla participação dos alunos de graduação, atividade que contribuiu para a erradicação da doença no município.

O Posto Médico de Cássia dos Coqueiros era mantido para estudos sobre Moléstia de Chagas, tendo servido para trabalhos de campo de outros departamentos da Faculdade: Parasitologia, Clinica Médica, Oftalmologia. Sem dúvida, um dos trabalho mais importantes já produzido sobre a profilaxia da Moléstia de Chagas, foi ali desenvolvido: a tese de Cátedra de José Lima Pedreira de Freitas: «Importância do expurgo seletivo dos domicílios e anexos para a profilaxia da Moléstia de Chagas pelo combate aos Triatomíneos»; ao se destacar a produção científica nacional sobre a Moléstia de Chagas freqüentemente é esquecido este trabalho que sentou as bases para o programa de erradicação da Moléstia em São Paulo e no Brasil. A partir de 1964, o serviço foi transformado em Posto Médico Rural da FMRP, onde passariam a estagiar sexto anistas e médicos residentes do HC-FMRP no chamado Estágio Rural. Como conseqüência do trabalho de Pedreira de Freitas , a própria FMRP envolveu-se em pesquisas clínicas, anátomo-patológicas e epidemiológicas sobre a Doença de Chagas, marcando uma linha de investigação muito importante na história da Instituição.

A divulgação do trabalho do DHMP trouxe visitantes interessados em conhecer o modelo de ensino aqui desenvolvido provenientes da Venezuela, Argentina, México, Equador, Colômbia, Chile e de outras cidades e estados brasileiros. Com o desenvolvimento do DHMP, novos profissionais foram se aproximando e integrando o quadro de docentes, como pode ser visto no quadro I.

Nos anos de 1962-1963, o DHMP participou da INVESTIGAÇÃO INTER-AMERICANA DE MORTALIDADE, promovida pela OPAS/OMS que com Research Grant do National Institute of Medical Sciense, USA, pesquisou a mortalidade de pessoas de 15 a 74 anos em 11 áreas da América Latina e uma da Inglaterra (Public. Científica 151, 1967) Neste trabalho se demonstrou, mais uma vez, a importância da Moléstia de Chagas como causa de mortalidade no nosso meio.

De julho de 1963 a julho de 1965 o Prof. Geraldo García Duarte participou da Coordenação do 1o. Curso de Pós-graduação da FMRP com vistas a oferecer treinamento básico na docência e na pesquisa a 17 docentes de vários departamentos. Em agosto de 1965 o DHMP iniciou um Curso de Pós-Graduação em Epidemiologia, ministrado pelo Prof. Pedreira de Freitas com a colaboração de García Duarte a 12 alunos, sendo 11 da FMRP e um da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto; o curso se estendeu até outubro de 1966. De 1963 a 1970 o DHMP mediou convênio proposto pela Indústria e Comércio de Minérios SA, ICOMI, do território do Amapá, para mútuo intercâmbio estágio periódico de médicos residentes naquela empresa.

Desde aquela época, os docentes do DHMP colaboram para o desenvolvimento de Cursos de Medicina Preventiva e Social, de Saúde Pública e Saúde Coletiva, de Epidemiologia e de Bioestatística em varias Faculdades do país: Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto, Faculdade de Medicina da Univ. Federal de Goiás, Faculdade de Ciências Médicas e Biológicas de Botucatu, Faculdade Federal de Medicina do Triangulo Mineiro (Uberaba – MG) e disciplinas de Saúde Pública na Escola Nacional de Saúde Pública.

Em 1965, foi criado o Departamento de Matemática Aplicada à Biologia, Chefiado pelo Prof. García Duarte que contou também com a colaboração de Euclydes Custodio de Lima Filho; segundo o Prof. García Duarte “os cursos de Matemática e Estatística dados na FMRP visam essencialmente iniciar o estudante no campo da «biologia quantitativa», a biologia do futuro… Da mesma forma, no curso de Estatística não interessam as operações aritméticas realizadas para tentar uma análise e sim o «por quê biológico» desse conjunto de operações”.

No mês de abril de 1966, regressando de uma viagem à Colômbia, como assessor da OPAS, o Prof. Pedreira de Freitas sofreu grave acidente automobilístico a poucos quilômetros de Ribeirão Preto vindo a falecer aos 49 anos de idade; 70 dias depois, no dia 15 de junho de 1966. Nesse mesmo ano, quando o Prof. Pedreira de Freitas ainda guardava o leito no Hospital, ordenou o inicio das atividades no novo prédio do Posto Médico do DHMP, no município de Cássia dos Coqueiros, ali construído através do esforço e dedicação daquele que não chegou a ver a sua obra inaugurada.